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🕒 Atualizado em 12/10 às 13h11

Jeito de falar na infância pode dar pistas sobre saúde mental no futuro

A maneira como crianças e pré-adolescentes falam pode ajudar a identificar sinais de vulnerabilidade para ansiedade, depressão e outros transtornos de saúde mental anos mais tarde. A conclusão é de um estudo que analisou, com auxílio da inteligência artificial, 204 jovens de 9 a 13 anos e acompanhou a evolução da saúde mental deles até seis anos depois.

Os resultados foram publicados em julho na Nature Mental Health e apontam que o estilo da linguagem foi mais informativo do que o conteúdo emocional. Em vez de procurar apenas palavras como tristeza, medo, ansiedade ou raiva em entrevistas com os participantes, os autores identificaram informações em aspectos mais sutis da fala, considerando a forma como as narrativas eram construídas.

Entre esses aspectos estavam as chamadas “palavras funcionais”, como pronomes, preposições e conjunções, expressões que usamos o tempo todo e normalmente não prestamos atenção. Por isso, sua utilização pode ajudar a revelar como uma pessoa organiza mentalmente uma experiência, conecta acontecimentos, faz referência a si própria e aos outros, ou como demonstra certeza e dúvida ao narrar uma situação.

“Quando contamos uma história, fazemos escolhas linguísticas o tempo inteiro sem nem perceber. Essas escolhas podem refletir processos cognitivos e emocionais menos conscientes”, diz o psiquiatra Thiago Andrade Pedrosa, especialista em infância e adolescência do Espaço Einstein de Bem-estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita.

Uma criança pode ter dificuldade para nomear diretamente aquilo que sente. Por isso, para compreender seu estado emocional, profissionais também recorrem a outros recursos, como brincadeiras e desenhos. “Perguntar simplesmente ‘Você está triste?’ não vai capturar a experiência emocional completa daquela criança”, detalha o psiquiatra.

A relação entre linguagem e estado psicológico não é exatamente uma novidade na psiquiatria. Na avaliação do estado emocional do paciente, os profissionais já observam a maneira como ele se expressa, seu vocabulário, a quantidade de palavras utilizadas e até a entonação da fala. Pesquisas anteriores, realizadas principalmente com adultos, também já haviam encontrado associações entre determinados padrões de linguagem e condições como depressão e traumas.

Para Pedrosa, o que chama atenção nesse trabalho é o foco em crianças e adolescentes e o período relativamente longo de acompanhamento. “Estudos nessa faixa etária ainda são mais escassos e, em geral, envolvem grupos menores e períodos de observação mais curtos. Esse trabalho mostra que a linguagem pode funcionar como uma espécie de marcador comportamental para vulnerabilidade”, avalia.

O trabalho, no entanto, fala em risco e não em destino. “Uma característica observada na fala de uma criança hoje não permite afirmar que ela desenvolverá um transtorno psiquiátrico no futuro. A trajetória de saúde mental depende de uma combinação de fatores, incluindo experiências estressantes, fatores de proteção e mudanças que acontecem ao longo da vida”, observa o psiquiatra.

Marcadores de risco e fatores protetores

A pesquisa identificou temas associados a maior risco de desenvolver transtornos mentais no futuro. Narrativas envolvendo violência física, conflitos interpessoais intensos, ameaças e exclusão social aparecem entre os principais marcadores de risco. “A violência vai ameaçar diretamente a sensação de segurança que essa criança tem. A exclusão social atinge outra dimensão, mas também central, que é essa sensação de pertencer”, explica Thiago Pedrosa.

Ao considerar o contexto das histórias, o trabalho foi capaz de diferenciar uma narrativa genérica sobre uma briga de relatos realmente envolvendo agressão física, ameaça ou uma experiência mais ampla de rejeição social. Isso não significa, porém, que uma palavra, um pronome ou uma característica da linguagem, isoladamente, permita concluir que uma criança esteja desenvolvendo ou desenvolverá um transtorno psiquiátrico.

O estudo também encontrou elementos relacionados à proteção da saúde mental. Referências a esporte, dança, escola, clubes, atividades extracurriculares e profissionais de saúde mental apareceram nas narrativas associadas a menor risco de desenvolver algum transtorno mais para a frente. Embora não possam prevenir transtornos, esses elementos representam uma rotina mais previsível e organizada, oportunidades de convivência, adultos de referência e uma rede de apoio.

Para os pais, o mais importante é observar mudanças em relação ao funcionamento habitual da criança ou do adolescente, como isolamento, perda de interesse por atividades de que gostava, queda no rendimento escolar, alterações persistentes no sono ou na alimentação, irritabilidade intensa e sinais de desesperança. “Mais do que procurar uma palavra específica, a gente precisa oferecer espaço para que a criança e o adolescente se sintam seguros e contem suas experiências”, conclui o médico do Einstein.