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Artigo: NOVA VENEZA – Rápidas Memórias Prof. Nereu do Vale Pereira

Desejo tornar público, através deste pequeno e modesto arquivo memorial, registros que guardo sobre meus andares de pesquisador e protagonista de uma feliz e saudosa lembrança da comunidade formada, predominantemente, por descendentes italianos, no Sul de nosso Estado, que recebeu a denominação de NOVA VENEZA.

A Região do Vêneto, com suas sete Províncias, foi o local de procedência dos primeiros imigrantes. Nela, encontra-se Veneza, uma majestosa e histórica cidade marítima que, com seu Golfo no Mar Adriático, seus canais, sua praça com a Basílica de São Marcos, os Festivais de Cinema, a Bienal de Artes, o Carnevale di Venezia, música, os admiráveis passeios de gôndola, sua gastronomia e sua base milenar de aberturas para as grandes navegações e formação de marujos rompedores dos grandes mares, talvez seja a mais antiga raiz que se implantou em território catarinense.

Com efeito, foi no dia 10 de outubro de 1526 que o navegador e explorador de novas terras, Sebastião Caboto, a serviço da Coroa de Espanha, aportou na então Ilha de Yjurere-mirim ou Meiembipe. Quando já alojado na ilha, com toda a sua marinhagem, toma a decisão, no dia 26 de novembro (data, no calendário católico, dedicada à Santa Catarina de Alexandria, padroeira dos estudantes, filósofos e doutores) daquele ano, de batizá-la com o nome oficial de Ilha de Santa Catarina, uma referência à Virgem Mártir de Alexandria. Essa denominação se consagra até os tempos atuais e com a sua aplicação para todo o território catarinense aonde vem, já no século XIX, abrigar a Colônia de Nova Veneza.

Tal é importante assinalar, pois Sebastião Caboto, esse célebre e arrojado navegador, era veneziano e nessa sua cidade instruiu-se para comandar grandes expedições marítimas, especialmente pelas Américas, deixando rastros espanhóis tanto no Oceano Atlântico como no Pacífico.

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Bom. Conheci a comunidade de Nova Veneza, ainda uma pequena povoação agrícola que integrava o então Município de Criciúma, e isso lá pelos anos quarenta do século XX.

Sei e tenho lido muito sobre a histórica trajetória de Nova Veneza até ter se tornado, nos dias atuais, um grande, forte e importante município que, com a contribuição dos colonizadores e seus trabalhos, construíram bela parte da cultura e da boa índole dos catarinenses de hoje. A esses, nós da velha guarda, muito lhes estamos devendo de gratidão e apreço.
Meu segundo contato com Nova Veneza vem ocorrer no início dos anos cinquenta. Tinha adquirido amizade com dois padres que exerciam atividades pastorais em nossa Ilha de Santa Catarina, o Padre Quinto Davide Baldessar e o Padre Amilcar Gabriel. Padre Quinto, na Catedral Metropolitana de Florianópolis, e estava assistindo espiritualmente a Juventude Operária Católica – JOC, onde eu era o coordenador dessa organização masculina. Padre Amilcar eu o conheci como Vigário da Paróquia da Santíssima Trindade de Trás-do-Morro, sendo que sua responsabilidade pastoral estendia-se a todo o Norte e ao Sul da Ilha. Tornei-me amigo desses dois célebres e santos Sacerdotes, que deixaram marcas profundas nas comunidades de Nova Veneza e adjacências.

Minha atividade profissional naquela época era de rádio operador, reparador e encarregado de sonorização de ambientes e eventos. No início dos anos cinquenta, Padre Quinto deixa a Catedral Metropolitana de Florianópolis para assumir a atividade de Pároco em Nova Veneza e se empenha em instalar um serviço de alto falantes na Igreja Matriz São Marcos. Nova Veneza não estava equipada com energia elétrica e, portanto, seria necessário adquirir um equipamento que pudesse ser ativado por baterias. (Pelas pesquisas que realizei, a Força e Luz de Nova Veneza veio a ser implantada em 1955).

Como já conhecia minha atividade técnica, Padre Quinto consultou-me se tal iniciativa poderia ser levada a efeito. Disse que sim e apresentei um orçamento de quanto deveria investir nos instrumentos e com meu serviço de instalação. Aliás, já vinha de implantar idêntico serviço na Catedral de Florianópolis e na Capela da Santíssima Trindade, onde Padre Amilcar atuara.
Iria necessitar de amplificador de som, toca discos e cornetas de alto falantes para dinamizar a comunicação na Igreja Matriz de Nova Veneza, através de um serviço de alto falantes, já denominado de A VOZ DO LEÃO DE SÃO MARCOS.
Foi para mim uma grande alegria e de muita responsabilidade a tarefa de providenciar os equipamentos necessários para, quando estivessem prontos, deslocar-me até Nova Veneza e instalá-los.

Tenho dificuldade de precisar o dia em que me desloquei a Nova Veneza. Parece-me, contudo, que foi pelo mês de março de 1952 que empreendi a viagem para ir até lá. Quem sabe a inauguração não teria sido próxima ao dia de São Marcos?
Na época, uma viagem por terra de Florianópolis até Nova Veneza levaria mais de um dia e duvidosa de se chegar até lá, se ocorressem chuvas.

Como alternativa, poderíamos utilizar uma ida aérea até Araranguá pela empresa Transportes Aéreos Catarinenses, a famosa TAC. Tudo acertado, partimos. Na aterrissagem, chovia fortemente e fui acometido de grande preocupação, ante a difícil descida em uma pista de grama (aliás, um pasto de precárias condições). Padre Quinto esperava-me no “Campo de Aviação” e, com seu jipe, demandamos por terra para a sede de Nova Veneza.
Pelo que estou informado, através do meu grande amigo Ademar Arcângelo Cirimbelli, um natural de Nova Veneza, A VOZ DO LEÃO DE SÃO MARCOS continua até hoje prestando relevantes serviços à comunidade paroquial, tendo sido objeto de reportagens a nível nacional.

O Santuário Diocesano de Nossa Senhora de Caravaggio é um outro importante local de promessas, pedidos, peregrinações, práticas religiosas em geral e expressão de religiosidade popular.
Voltei a ter contatos com Nova Veneza pelos anos oitenta quando, sendo junto com minha Esposa, o Casal Regional do Movimento das Equipes de Nossa Senhora, movimento que busca reunir casais desejosos de viver santamente seu Sacramento do Matrimônio. Nova Veneza tinha forte adesão a esse movimento.
Já naquela época, foi possível constatar o surpreendente desenvolvimento e a grandeza de sua população, organizada em um forte Município.

No atual retorno, fico muito alegre em rever este belo rincão, onde os homens brasileiros, descendentes de imigrantes, muito honram Santa Catarina, o Brasil e nossa cultura.
Um forte e amigo abraço a todos os habitantes de Nova Veneza.


 

– A Região do Vêneto é de intensa religiosidade. Nela, nasceram sete Papas; dois foram canonizados e são santos da Igreja (Pio X e João XXIII). Dela, os imigrantes trouxeram expressivas devoções à Mãe de Deus, como da Madonna di Caravaggio, da Madonna dei Campi ou Nostra Signora della Preghiera e da Madonna di Monte Berico. Em Veneza, nasceram e viveram, igualmente, numerosos artistas, arquitetos famosos e músicos, destacando-se Antônio Vivaldi. É classificada pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade, por seus muitos monumentos, locais turísticos, numerosas igrejas e museus.
Florianópolis, 17 de junho de 2014.

Síntese biográfica organizada por Ademar Arcângelo Cirimbelli

Nereu do Vale Pereira nasceu em Florianópolis, no dia 13/9/1928, onde reside. Casado, em 29/11/1952, com Irany Silva do Vale Pereira têm nove filhos, quatorze netos e dois bisnetos. É doutor em sociologia, economista, folclorista e dirigente esportivo. Atuou por muitos anos na UFSC, sendo considerado um dos seus pioneiros. Foi vereador e deputado estadual. Presidente do Avaí Futebol Clube em 1993 é o Conselheiro mais antigo do Clube, com mais de cinquenta anos de presença marcante. Nas dependências do Estádio Aderbal Ramos da Silva- Ressacada, foi inaugurada, em 31/8/2007, a Biblioteca Nereu do Vale Pereira. Sócio Emérito do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, integrante de diversos Conselhos nacionais e internacionais, membro da Academia Catarinense de Letras e da Academia Desterrense de Letras é autor de mais de uma dezena de livros, artigos e vídeos sobre cultura açoriana.

“Nereu do Vale Pereira, cidadão exemplar com muitas habilidades e intensa atividade comunitária, durante décadas, tem marcado sua atuação em instituições educacionais, culturais, políticas, religiosas, desportivas e filantrópicas. Fincou pilares sólidos para erguer construtivas pontes entre Santa Catarina e os Açores, ajudando a consolidar a histórica integração luso-brasileira. Dedicado nos últimos anos à pesquisa sobre a história catarinense, transformou-se num dos principais conhecedores da experiência açoriana. Não se limitou, contudo, às abordagens teóricas, acadêmicas. Partiu para ações objetivas que resultaram em experiências vitoriosas, como a pioneira Fundação Cultural Açorianista e o Ecomuseu do Ribeirão da Ilha, entre tantas que criou, dirige ou ajuda a manter em Florianópolis, ou ainda, participou da criação da Casa dos Açores – Ilha de Santa Catarina e do Núcleo de Estudos Açorianos na UFSC. Méritos para tanto empenho sobram ao reconhecido sociólogo e pesquisador. Mas, o que se transforma em ação invejável a enriquecer sua biografia intelectual é a jovialidade na produção de livros que revelam joias raras da história de Santa Catarina”… (Moacir Pereira, Presidente interino da Associação Catarinense de Imprensa, in “Santa Catarina a Ilha – 500 Anos: Origem de sua denominação e outros feitos”, de Nereu do Vale Pereira, 2ª edição, 2013).
Programou estar em Nova Veneza, com sua esposa, nesta X Festa da Gastronomia.


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