Colunistas

O último dia de um estranho

O dia parecia um tanto estranho. Estava nublado, e o frio do amanhecer dava-me a sensação de que poderia ter os pés congelados. Meu corpo, afundado na poltrona, recusava-se dali sair. Já havia perdido as contas de quanto tempo fazia que permanecia sentado naquele velho móvel, que a frente da janela do meu quarto, presenteava-me com uma bela paisagem. Nada de mais. Algumas arvores sem folhas, uma rua pouco movimentada, o silêncio do subúrbio e minha solidão.

De junho a outubro, por conta do inverno mais rígido, passava mais tempo naquele sofá, em companhia de meu cachimbo e de alguns livros, do que qualquer outra coisa. Deixava de lado meu consultório, amigos e até mesmo o convívio da família. Esta reclusão era algo necessário, para que pudesse colocar não apenas os pensamentos em dia, mas também era como uma espécie de organização mental.

Reservava meu tempo, divagando em minha máquina de escrever. Porém quando a fadiga não permitia-me levantar para pega-la, o caderno, que sempre ao meu lado, cumpria eficientemente este papel. De tempos em tempos levantava para jogar fora as garrafas de vinho, que se acumulavam ao meu redor. Limpava meu velho cinzeiro, cuidava de minha higiene, e ia até a cozinha para verificar se teria suprimentos suficiente para o inverno.

Era um tanto metódico, e durante o verão, quando minha rotina é um pouco mais agitada, arranjava tempo para preparar tudo para o inverno, certificando-me que não precisasse sair de casa para nada. Comprava os livros de minha lista de desejos, bem como os vinhos mais nobres, que no verão por conta do calor, podem ser encontrados até pela metade do preço normal. Não esquecia-me do queijo, fundamental para o inverno, o fumo de corda, que conseguia de graça com meu avô, e mais alguns alimentos necessários para minha sobrevivência.

Meu apartamento, que não era muito grande, não roubava-me muito tempo. Em menos de duas horas, conseguia deixa-lo limpo suficiente para que vivesse nele sem ter maiores problemas. Era um tanto engraçado, pois ao final de cada inverno, saia dele uns dez quilos mais gordo, e percebia isso, pois minha respiração ficava pesada, e a noite quando deitava, por vezes pensava que não amanheceria vivo. Temia ter um infarto ou coisa parecida, mas o que por fim deixava-me aliviado, era saber que caso não amanhecesse mais, teria encerrado a vida com um bom vinho.

Acredito que estava perto dos quarenta anos. Não sei ao certo, pois já havia parado de contar. Lembrava agora, de meus cabelos, que haviam se perdido já tinha uns dez verões. Minha esposa, a uns treze anos havia viajado para Londres a trabalho, e não sei porque, até hoje não havia voltado. Acredito que ela possa ter encontrado algo melhor por lá.

Mas quem sabe um dia, ela retorne para me contar tudo que viveu neste tempo de viagem. Era ela loira, com mais ou menos 1,80 metro, pesava se não me engano uns 70 quilos e adorava ler romances da moda. Trabalhava como engenheira para uma renomada multinacional, e sem dúvidas ganhava umas dez vezes mais que eu. Sempre que pensava nisso, deixava um sorriso escapar pelos meus lábios, pois pensava o quanto que era feliz por ter a sorte de encontrar alguém como ela.

O quarto estava mal iluminado, pois ainda não havia amanhecido direito. Havia entrado madrugada a dentro lendo um clássico naquelas edições de capa dura, que roubam suspiros apenas de tê-las em mãos. A cada página, entrava mais naquela história, e o personagem ganhava vida dentro de mim. Pensei por um instante ser Ezequiel, (Personagem do livro), mas voltei a realidade, quando dei-me conta que não era tão popular quanto ele.

Lembrei nesse momento de Anitta, uma velha amiga de faculdade, que já fazia mais de doze anos que não a via. Éramos quase que irmãos, porém após a formatura, ela mudou-se devido seu emprego, e nunca mais tive notícias dela. O porque lembrar dela neste momento, também não sabia, mas já fazia alguns dias que estava com alguns pensamentos estranhos.

Por hora, tentava me esquivar deles. Lia um livro, mas quando percebia lá estavam eles de volta, rodeando minha mente. Lembrei do tempo de faculdade. De todas as pessoas que havia conhecido. Para minha surpresa, descobri, que muitos deles já fazia anos que não os via. Última vez que vi alguém, já tem uns três anos. Estava em um bar, bebendo uma cerveja, quando encontrei um colega. Estava casado, com três filhos. Dois meninos e uma menina. Parecia feliz, mas não posso afirmar com toda certeza, pois não conversei com ele.

Última página. O livro se fechou, Ezequiel morreu, e a história chegou a seu fim. Com ele, ia-se também Anitta e todas as outras lembranças. Os livros eram maravilhosos, traziam momentos inesquecíveis, porem tinham apenas um problema. Muitas vezes eles eram demasiadamente rápidos, e quando terminados, se tornariam apenas mais um na prateleira para acumular pó. Isso de certa forma deixava-me frustrado, afinal alguns eram tão fantásticos, que mereceriam ser eternizados. Às vezes, pegava-me parado em frente à minha estante.

Comtemplava aqueles livros estagnados na prateleira. Deixava algumas lágrimas escorregarem, vendo aquelas histórias envelhecerem e se decomporem com a ação do tempo. E isso fazia-me pensar, o quanto medíocres éramos. Afinal, nascíamos e logo já éramos adultos. Passaríamos a vida toda trabalhando e acumulando, para depois simplesmente morrer, se decompor e virar pó. Isso me fez lembrar de um excelente livro que li a pouco tempo.

O nome dele era “Tudo que é solido desmancha no ar”. Nestes momentos até um leve desespero tomava conta de mim, e era neste instante que lembrava de meus dois filhos. Nossa, como eles são lindos! – pensava eu. Como minha mulher, já tinha uns 13 anos que não os via. Porém com eles foi um pouco diferente. Eles não viajaram. Simplesmente foram para casa da avó, dizendo que comigo não queriam mais viver. Sem muitas opções, decidi respeitar a vontade deles. De tempos em tempos, minha mãe fala deles. Ela diz que eles estão bem.

Contei mais três garrafas de vinho. Era o que tinha para o resto do inverno. Confesso que fiquei preocupado, afinal havia comprado mais do que inverno passado. Não entendia o porquê já havia acabado. Senti novamente o desespero levemente tomar conta de mim.

Neste momento já estava na cozinha. Fui lá para me certificar de que haviam mais garrafas, porém para minha surpresa, descobri que aquelas três no meu quarto, eram de fato as últimas. Algumas perguntas, rodeavam minha mente. Voltei ao quarto, olhei para ele. Minha poltrona, minha cama desarrumada, uns 20 livros caídos sobre o chão e as três garrafas de vinho sobre a cabeceira. Como podia? Não entendia, e a ausência desta resposta, fez meu desespero aumentar.

Quando percebi, estava na cozinha novamente. Fui atrás de minha esposa, para tirar satisfação, mas ao chegar lá, então lembrei que ela havia viajado já havia alguns anos. Parado, perplexo a porta, dei-me conta que de certa forma estava sozinho. Lembrei rapidamente de meus filhos, que muito provável estariam no quarto.

Porém para o aumento de meu desespero, mais uma vez minha imaginação me disse que estava enganado. Percebi que meus filhos também haviam ido embora. O que ouve? – era a pergunta que perpassava em minha mente. Olhava ao meu redor, e tudo que via, era um apartamento sujo e fedido. Dei-me conta que não era inverno. Já não sabia que mês era. Mas porquê?  Deveria ter vinho e comida suficiente até outubro.

Liguei a televisão, como uma última tentativa. Passavam propagandas de natal. Minha cabeça deu um nó. Senti então o calor tomar conta de mim. Mas porquê? Porque somente agora? Enquanto me perguntava várias coisas, sentia o desespero aumentar. Pensei que ia enlouquecer, mas em uma última constatação, percebi que já era tarde.

Uma última imagem me fez pensar. Era a vista de minha janela. Não sabia como havia chegado ai. Mais uma vez via as arvores, a rua, e agora a solidão já não era mais tão silenciosa. Em uma última tentativa, busquei respostas no improvável. Talvez fosse o fim. Era o fim. Restaram-se assim três garrafas de vinho.

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