☁️ 14°C — Nova Veneza, SC
💵 US$ 5,05 -0,28%
💶 € 5,86 +0,14%
£ 6,78 -0,02%
🇦🇷 AR$ 100 = R$ 0,33 0,00%
R$ 355.624 +4,72%
📈 Ibovespa 173.306,94 +1,27%
🌾 Arroz 50kg (Sul SC) R$ 65,00
🕒 Atualizado em 15/06 às 11h36

Tratamento para insônia evolui, mas estilo de vida é fator determinante

cottonbro studio

O tratamento para a insônia traz alívio a quem vive com dificuldade para dormir. Mas os principais medicamentos usados atualmente podem trazer efeitos indesejados a longo prazo, como dependência e sonolência. Daí a importância de abordagens terapêuticas que ajudem no sono sem essas reações, como é o caso de um fármaco aprovado em 2025 no Brasil que promete tratar a insônia por um mecanismo distinto.

O lemborexante, que deverá ser comercializado sob o nome Dayvigo, pertence à classe dos antagonistas duplos do receptor de orexina (DORA). Isso significa que atua diretamente sobre os receptores de orexina 1 e 2 (OX1 e OX2). Também conhecida como hipocretina, a orexina é um neuropeptídeo produzido na região do hipotálamo lateral, que exerce papel central na manutenção dos estados de vigília e alerta, bem como da estabilidade do ciclo sono-vigília. Conforme reduz os sinais que mantêm o cérebro em alerta, a substância favorece a transição para o sono, em um movimento mais próximo do fenômeno fisiológico de adormecimento.

Hoje, os tratamentos mais comuns se baseiam no uso de benzodiazepínicos (como clonazepam, diazepam, alprazolam e lorazepam), as chamadas drogas Z (que incluem zolpidem, zopiclona e eszopiclona) e alguns antidepressivos e antipsicóticos empregados de forma off-label, aproveitando seu efeito de sonolência. Essas alternativas potencializam a ação do ácido gama-aminobutírico (GABA), neurotransmissor capaz de desacelerar as funções cerebrais, promovendo a sedação do sistema nervoso central.

Esse mecanismo é eficaz em fazer as pessoas dormirem, mas o uso contínuo pode trazer efeitos colaterais de grande risco. “Os benzodiazepínicos estão associados a tolerância, dependência, prejuízo cognitivo, sonolência residual, risco de quedas e alteração da arquitetura normal do sono”, destaca o neurologista Rodrigo Meirelles Massaud, do Einstein Hospital Israelita. “As drogas Z, embora inicialmente consideradas mais seguras, também podem causar dependência, amnésia e comportamentos complexos do sono, como sonambulismo e automatismos noturnos.”

Na prática, o tratamento a longo prazo com essas substâncias leva o organismo a se adaptar à ação dos medicamentos. Isso faz com que a dose inicial perca efeito gradualmente, levando muitos pacientes a precisarem de doses maiores para obter o mesmo resultado. Além disso, o corpo pode passar a depender da medicação para dormir. Por isso, a interrupção pode provocar sintomas de abstinência e a chamada insônia rebote, quando a dificuldade para dormir volta ainda mais intensa do que antes.

Como age o lemborexante

No estudo clínico SUNRISE 1, cujos resultados foram publicados em 2019 na revista JAMA, o lemborexante reduziu o tempo de adormecimento dos participantes com histórico de insônia em comparação a grupos que receberam placebo ou zolpidem. Também houve melhora na eficiência do sono: os voluntários que receberam a medicação tiveram mais de 60 minutos adicionais de sono por noite.

Em um estudo clínico posterior, o SUNRISE 2, testou-se a eficácia e segurança da substância em comparação a um placebo ao longo de seis meses. Os resultados, descritos em um artigo publicado em 2020 na revista Sleep, mostraram benefícios consistentes em parâmetros fundamentais do sono. Mais de 30% dos participantes em tratamento com o remédio atingiram critérios de resposta para início do sono, contra 18% no placebo. Em relação à manutenção do sono durante toda a noite, os índices mantiveram-se no patamar de 30% a 35% nos grupos ativos, frente a apenas 20% no placebo.

“Ao diminuir o estado de hiperalerta cerebral, que frequentemente sustenta a insônia crônica, o medicamento não ‘desliga’ o cérebro de forma generalizada. Do ponto de vista neurobiológico, esse processo leva a um sono mais próximo daquele esperado quando desencadeado por mecanismos fisiológicos naturais”, explica o neurologista. “Os antagonistas dos receptores de orexina representam uma das mudanças mais interessantes no tratamento farmacológico da insônia nas últimas décadas.”

O tratamento deve ser individualizado, prescrito por médico e destinado a adultos com diagnóstico de insônia. “Nenhuma medicação para sono é completamente isenta de efeitos adversos. O lemborexante pode causar sonolência diurna, fadiga, sonhos vívidos, paralisia do sono e piora do desempenho quando associado ao álcool ou a outros depressores do sistema nervoso central”, observa o médico do Einstein.

Por isso, é importante que o uso seja acompanhado de perto por um profissional de saúde. “Ao contrário de doenças como hipertensão e diabetes, que exigem um cuidado contínuo, o transtorno da insônia é flutuante e dinâmico. Muitas variáveis estão envolvidas e pode chegar um momento da vida em que tudo se estabilize, permitindo até a retirada da medicação”, sugere o clínico Rodrigo Nascimento, diretor médico da Eisai, farmacêutica japonesa responsável por desenvolver o remédio.

Estilo de vida importa

A insônia é considerada um dos distúrbios do sono mais comuns no mundo. Segundo uma pesquisa publicada em 2025 na revista Sleep Medicine Reviews, estima-se que a condição atinja cerca de 852 milhões de pessoas, correspondendo a uma prevalência de aproximadamente 16% entre toda a população.

Essa crise epidemiológica é fruto, sobretudo, do estilo de vida contemporâneo. “Vivemos em um ambiente biologicamente pouco compatível com a fisiologia natural do sono. O ser humano evoluiu para sincronizar seu ciclo circadiano com luz solar, atividade física diurna e períodos relativamente previsíveis de descanso”, analisa Massaud. “Hoje, porém, há exposição excessiva à luz artificial, hiperconectividade, jornadas prolongadas de trabalho, ansiedade crônica, uso intenso de telas e estímulos constantes até altas horas.”

O descompasso entre o relógio biológico e as demandas cotidianas faz com que o cérebro permaneça em um estado de hiperalerta difícil de superar e, por isso, diversas pessoas acabam recorrendo à automedicação, sem acompanhamento médico. Essa prática, porém, pode trazer complicações à saúde, além de não oferecer nenhuma garantia de sucesso.

A insônia pode envolver fatores comportamentais, emocionais, psiquiátricos, neurológicos, respiratórios e até hormonais. Em alguns casos, inclusive, a condição é um sintoma associado a outros problemas mais complexos, como ansiedade, apneia obstrutiva do sono, dor crônica, uso excessivo de cafeína, álcool ou estimulantes e hábitos inadequados de sono. Daí a importância de buscar a avaliação médica especializada, já que nem sempre a medicação é a primeira linha de tratamento.

Quando indicado, o medicamento deve ser aliado a outras abordagens terapêuticas, como a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I). “Até 30% dos pacientes apresentam regressão dos sintomas apenas com a TCC-I e, hoje, existe a possibilidade de realizar esse acompanhamento de forma online, muito mais acessível”, aponta Nascimento, que falou sobre o tema durante o 1º Congresso Internacional Einstein de Psiquiatria, Saúde Mental e Bem Estar, realizado em abril.

A estratégia combina técnicas de reeducação do sono, controle de estímulos, restrição do tempo na cama, higiene do sono e manejo de pensamentos ansiosos relacionados ao ato de dormir. O objetivo é quebrar o ciclo de comportamentos e crenças que perpetuam a insônia, auxiliando o paciente a recuperar um padrão de sono mais estável e reparador.

“Evitar o celular na cama, reduzir os ruídos e a luminosidade no quarto, manter uma temperatura adequada no ambiente, evitar a cafeína e o tabaco antes de dormir e praticar atividade física regularmente são mudanças de comportamento que trabalham em conjunto com a medicação no tratamento da insônia”, ressalta o diretor médico da Eisai. “Inclusive, é justamente por meio desse manejo amplo do problema que pode chegar um dado momento em que o paciente poderá até parar de usar o medicamento.”