O café faz parte da nossa cultura, seja no consumo e no plantio.  Café, uma bebida e um cultivo à moda antiga que ainda resiste em algumas famílias de Nova Veneza. Vamos conhecer o casal neoveneziano João Salvaro Tinelli de 73 anos, e sua esposa Valmira Cúnico Possamai Tinelli de 64 anos.

Residentes em propriedade rural com o total de sete hectares, localizada apenas dois quilômetros do centro de Nova Veneza, mas, com produção própria de muitos alimentos saudáveis. Entre os produtos coloniais, assim chamados, o café consumido pela família vem do próprio cafezal e processado de forma artesanal.

Cerca de vinte pés de café estão na chácara que divide espaço com outras dezenas de frutas. No mês de maio e junho eles fazem a colheita dos grãos, selecionados um a um manualmente pelo casal, os que estão com a casaca vermelha são os bons afirma seu João Tinelli.

Depois da colheita eles vão para secagem natural exposta ao sol entorno de quarenta dias. Passando por outra seleção através de uma peneira manual.

Os grãos totalmente secos vão ser torrados dentro de um tambor de ferro com suporte que o mantém acima do fogo, e uma manivela para manter a torradeira girando entorno de quarenta minutos, até que o café esteja no ponto da sua torrefação. Os grãos prontos são armazenados em recipientes fechados de vidro ou plástico, para que não perca o aroma.

Para que o sabor permaneça, os grãos são moídos aos poucos, entorno de 300 gramas por vez no próprio moedor do casal, antes manual, hoje elétrico. Como era uma vez? Os mais velhos lembram quando íamos ao armazém comprar o café, e eles moíam na hora.

Na modernidade vieram as maquinas de café, cafeteiras elétricas, filtros sintéticos, mas, o mais gostoso da preferência nacional ainda são os feitos de coador tradicional, aquele saco que se usa no bule.

Para concluir a minha pesquisa, a senhora Valmira Tinelli fez um café para eu experimentar. Enquanto ela passava o café, um delicioso aroma de café tomava conta do ambiente, uma delícia, fazendo lembrar meu tempo de infância, pois, os meus pais, também tinha pés de café.

Praticamente todas as famílias cultivavam café para o próprio consumo. Nunca compramos um grama de café afirma Valmira, o excedente do café produzido não vendemos, dou para os meus filhos outros familiares.

A maioria das plantas de café do casal tem mais de cinquenta anos, mas, eles continuam plantando novas plantas para manter a tradição. Segundo o engenheiro agrônomo Emerson Crippa as variedades do café plantado em nossa região é o arábica e o conilon. O cultivo é totalmente natural, não recebe nem tipo de química ou orgânica.

Abaixo uma pesquisa que traz uma síntese da história do café no mudo e no Brasil:

A palavra “café” não é originária de Kaffa — local de origem da planta —, e sim da palavra árabe qahwa, que significa “vinho”, devido à importância que a planta passou a ter para o mundo árabe.

Seres humanos bebem café há muito tempo. Muito tempo mesmo. Por isso não temos nem registro de exatamente quem ou como o café foi descoberto. Diz a lenda que tudo começou há mais de mil anos, quando um pastor da região que hoje é a Etiópia observou que as suas cabras ficavam saltitantes quando comiam frutinhas de um certo arbusto.

Olha, essa história é muito bonita e pode ser que tenha acontecido. Mas se pensarmos no leste da África há mil anos, também é provável que as pessoas provassem qualquer frutinha que estivesse ao alcance da mão.

O que parece ser fato é que durante muito tempo nós consumimos o café como a fruta inteira, como se fosse uma amora ou um morango. E também parece bastante consenso que desde muito tempo percebemos a propriedade estimulante do café. Há indícios de que os pastores da região da Etiópia maceravam a fruta do café junto com banha, para conservá-la e ter uma reserva de energia durante longas caminhadas.

A planta veio para o Brasil em 1727, quando o governador do Pará enviou o sargento-mor do exército, o senhor Francisco de Melo Palheta, para a Guiana Francesa. Ele foi com a intenção de trazer sementes e mudas da sob o pretexto de mediar uma disputa de fronteiras.

Diz a lenda, que trazer o café para o Brasil não foi uma tarefa simples. Palheta encontrou resistência por parte do governador d’Orvilliers, que não queria dar as mudas, sob ordens do rei da França. Então, foi preciso usar seu charme para persuadir a esposa do governador, Madame d’Orvilliers, a lhe dar uma muda da planta.

Felizmente alguém teve uma ideia melhor. E esse alguém foram os árabes. Foram eles que resolveram separar o grão, torrar e jogá-lo na água é realmente fascinante. Quando lembramos que eles já tomavam bastante chá naquela época, fica um pouco mais fácil de entender como tiveram a ideia de torrar e jogar na água quente.

Durante muito tempo o café foi monopólio árabe. Por conta da ação revigorante, ele era considerado uma planta medicinal e os árabes tentaram ao máximo manter o cultivo exclusivo dessa planta que só aumentava de valor.

No século XVII o hábito de beber café se populariza na Europa, com os viajantes levando às principais capitais o que era conhecido como “vinho árabe”. Em pouco tempo os europeus se voltam a perseguir as mudas e os árabes acabam perdendo o controle exclusivo da produção.

Foram os holandeses que conseguiram contrabandear as primeiras mudas para a Europa, e logo se tornam entusiastas da bebida, espalhando mudas em suas colônias mundo afora.

O consumo de café explodiu na Europa, afinal ele aquece, estimula e diminui a fome. Os portugueses rapidamente perceberam o potencial de mercado dessa plantinha. Só que havia um probleminha.

Os holandeses haviam compartilhado algumas mudas com os franceses, mas esses dois povos tentaram manter a produção exclusiva entre eles e os árabes. Sendo assim, o café chegou ao Brasil da mesma forma que chegou a Amsterdã: contrabandeado.

Com boatos ou não, Palheta trouxe o café para o Brasil! E assim, a primeira plantação de café em terras brasileiras foi no Pará. O café adaptou-se bem ao nosso clima. E sua difusão foi feita, inicialmente, de maneira tímida pelo litoral do Brasil. Conforme a produção se consolidou como atividade econômica importante ela foi se fixando nos locais onde os melhores frutos eram produzidos: Vale do Paraíba e a região sul Minas Gerais.

Por conta da sua importância como cidade e da sua proximidade com o porto, o café também foi bastante cultivado no Rio de Janeiro. Mas conforme as técnicas de cultivo e de preparo do café foram se refinando, percebeu-se que na verdade o café se sai melhor quando é plantado em regiões de maior altitude. Regiões costeiras, na altura do mar, dificilmente produzem bons grãos. Até hoje existe a expressão “café riado” para descrever um café de baixa qualidade. A palavra “riado” vem de rio, Rio de Janeiro.

Em 1825 oficialmente começa o ciclo do café no Brasil. Isso significa que ele se torna o principal produto da economia brasileira. Por quase um século a safra do café vai determinar fortunas e tragédias dos poderosos do país. Com um destaque tão grande na vida econômica, café vai se embrenhando na cultura brasileira.

Essa participação na cultura é o que hoje coloca o país como o segundo maior consumidor da bebida, atrás apenas dos EUA. Ao longo do ciclo do café alcançamos o posto de maiores produtores mundiais, da onde nunca mais saímos. Atualmente produzimos quase o dobro do segundo colocado no ranking, o Vietnã.

Que tal começar com o café? Apesar de sermos os maiores produtores disparados do grão (representa cerca de 30% a 40% de toda a produção mundial), estamos bem longe de sermos os maiores consumidores per capita da bebida – estamos para lá da 30ª posição.

Holanda e Finlândia são os líderes desta lista. O primeiro país, por exemplo, consume uma média de 2,4 xícaras/dia por habitante. Já os finlandeses são responsáveis pelo consumo de 1,8 xícaras/dia para cada morador do país. Para efeitos de comparação, o Brasil consome apenas 0,4 xícaras/dia por habitante.

Países como Suíça, Alemanha, Noruega, Polônia, Estados Unidos, Grécia, Costa Rica e muitos outros superam as terras tupiniquins quando o assunto é consumo per capita. Curioso é ver nações como Itália e Colômbia, por exemplo, posições atrás dos brasileiros.

Texto, fotos e pesquisa: Nicola Gava