A esclerose múltipla é uma doença autoimune crônica que afeta o sistema nervoso central. O sistema imunológico passa a atacar a bainha de mielina, estrutura que envolve e protege os neurônios, prejudicando a transmissão dos impulsos nervosos. Como consequência, surgem inflamações e lesões no cérebro e na medula espinhal, que podem causar alterações na visão, fraqueza muscular, dificuldade para caminhar, fadiga, entre outros sintomas.
O acesso a diagnóstico e tratamento no Brasil vem mudando nos últimos anos. É o que mostra um estudo liderado por médicos do Einstein Hospital Israelita e pesquisadores do Centro de Estudos e Promoção de Políticas de Saúde (CEPPS), também do Einstein, publicado em junho na revista Multiple Sclerosis and Related Disorders, com dados de 27 mil pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2019 e 2023.
Nesse período, o número de pessoas em tratamento cresceu 25,9%. “Observamos que a prescrição de medicações de alta eficácia aumentou em todas as regiões do Brasil, mas de forma desigual e heterogênea”, relata a neurologista Lívia Almeida Dutra, líder do estudo e coordenadora do Instituto do Cérebro do Einstein.
O tratamento da esclerose múltipla é feito com moduladores do sistema imunológico, que reduzem a capacidade do corpo de atacar a bainha de mielina. Até a atualização do protocolo clínico nacional do SUS, em 2021, esses remédios não podiam ser dados no início do tratamento e era preciso passar primeiro por medicações de baixa eficácia. Com a mudança do protocolo, foi possível indicar drogas de alta eficácia mais precocemente, estratégia que ajuda a preservar a qualidade de vida dos pacientes.
Tal realidade, entretanto, é menos presente conforme se analisam diferentes regiões do país, com menor prescrição de medicações de alta eficácia em alguns estados. “Os motivos para a heterogeneidade da prescrição ainda precisam ser explorados, e podem envolver dificuldade na rede de atendimento para execução de exames mais detalhados, centros para infusão de medicações e problemas na dispensação do medicamento”, especula Dutra. Segundo ela, estrutura e treinamento são essenciais para avançar ainda mais.
Diagnóstico tardio também é barreira
Conseguir detectar a esclerose múltipla precocemente é outro desafio. “A demora no diagnóstico ocorre pela demora na realização de exames complementares, como a ressonância magnética de crânio, que é o principal exame que comprova a presença das lesões cerebrais e medulares”, analisa a neurologista Claudia Vasconcelos, da Academia Brasileira de Neurologia (ABN).
Os sintomas dependem de onde a inflamação ocorre, ou seja, em que área os neurônios estão sendo atacados. As manifestações podem ser de ordem motora, neurológica ou funcional, como perda de força nos membros, equilíbrio, visão e controle do esfíncter. “Alguns sintomas ainda são interpretados erroneamente na atenção básica como ansiedade ou associados a causas ortopédicas, e os pacientes não são direcionados ao neurologista”, pontua Vasconcelos, que é professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).
Para ela, seria importante ampliar o acesso a exames de ressonância magnética e à análise do líquor, fundamentais para confirmar o diagnóstico, além de medicações e exames de biomarcadores, que ajudam a avaliar a progressão da doença e a resposta ao medicamento. “Também é fundamental que médicos da atenção básica tenham maior conhecimento sobre a esclerose múltipla e possam agir para o diagnóstico ser feito antes dos sucessivos surtos da doença”, conclui Claudia Vasconcelos.









