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🕒 Atualizado em 27/07 às 13h00

Varizes atingem até 40% dos adultos, mas acesso a tratamento é desafio

As varizes costumam ser lembradas apenas como um incômodo estético, mas estão entre as manifestações mais comuns da doença venosa crônica, condição que pode evoluir com dor, inchaço, alterações na pele, sangramentos e até úlceras de difícil cicatrização quando não tratada. Estima-se que entre 30% e 40% da população adulta brasileira apresenta algum grau de insuficiência venosa crônica, e o acesso ao tratamento é divergente no país.

Recém-publicado na revista Annals of Vascular Surgery, um estudo liderado por pesquisadores do Einstein Hospital Israelita analisou mais de 1,2 milhão de cirurgias de varizes realizadas no país entre 2015 e 2023, a partir de dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e do DATASUS, que fornece informações do Sistema Único de Saúde (SUS).

O levantamento identificou uma desigualdade: embora cerca de 75% da população dependa exclusivamente do SUS, a taxa de procedimentos na saúde suplementar foi quase cinco vezes maior. Os dados também revelam disparidades regionais: a maior parte dos procedimentos foi realizada no Sudeste, que concentrou 62% dos casos, seguido pelo Sul (17,5%). Já o Norte respondeu por apenas 1,5% das cirurgias.

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“Nosso objetivo não foi comparar a qualidade dos sistemas, mas mostrar um retrato da realidade brasileira. Agora surgem novas perguntas que poderão ser respondidas em outros trabalhos: por que algumas regiões fazem mais cirurgias do que outras? Como otimizar a distribuição de recursos? Como ampliar o acesso ao tratamento? Esse trabalho foi um primeiro passo e esperamos que esses dados sirvam de base para orientar futuras políticas públicas”, relata Bruno Jeronimo Ponte, cirurgião vascular no Einstein e um dos autores da pesquisa.

Doença silenciosa e progressiva

As varizes fazem parte de um espectro conhecido como doença venosa crônica, que atinge desde pequenos “vasinhos” até veias maiores. “O problema começa quando as válvulas existentes nas veias deixam de funcionar adequadamente”, explica o cirurgião vascular Nelson Wolosker, reitor do Ensino Einstein e líder da equipe que conduziu o estudo. Essas estruturas têm a função de bombear o sangue em direção ao coração. “Quando essas válvulas falham, o sangue reflui, se acumula nas pernas e dilata as veias, dando origem às varizes”, detalha Wolosker.

A doença costuma evoluir lentamente ao longo dos anos. Inicialmente, pode causar apenas pequenas alterações visíveis na pele; com a progressão, surgem sintomas como sensação de peso no final do dia, dor, cansaço e inchaço. Nos casos mais avançados, o aumento da pressão nas veias pode provocar inflamação dos tecidos, alterações na coloração da pele e formar úlceras venosas, capazes de permanecer abertas por meses ou anos.

Além disso, aumenta o risco de trombose venosa profunda e de sangramentos provocados pelo rompimento de varizes mais calibrosas. “A doença venosa crônica não costuma matar, mas pode comprometer muito a qualidade de vida. Há pacientes que deixam de trabalhar, sofrem com a dor crônica e convivem durante anos com feridas nas pernas”, afirma Wolosker.

A análise feita por pesquisadores do Einstein aponta que 78% das cirurgias no Brasil foram realizadas em mulheres. Embora seja mais comum no sexo feminino, a doença também acomete homens. Fatores genéticos, envelhecimento, obesidade, gestações e profissões que exigem muitas horas em pé ou sentado aumentam o risco de desenvolver varizes.

Diagnóstico e tratamento

Um dos principais desafios para o tratamento é que muitas pessoas ainda enxergam as varizes apenas pelo aspecto estético e acabam adiando a procura por atendimento. “Muitos pacientes só buscam ajuda quando a doença já está causando complicações. Mas é importante entender que as varizes são uma doença progressiva”, alerta Ponte. “Mesmo quando a pessoa possui apenas pequenos vasos aparentes, é importante avaliar se existe uma insuficiência venosa mais profunda que ainda não é visível.”

O diagnóstico costuma se basear na avaliação clínica e no histórico do paciente. A realização de exames de imagem, como o ultrassom, nem sempre é necessária para confirmar a doença. Na maioria dos casos, o exame é solicitado após o diagnóstico para mapear as veias doentes e planejar o tratamento quando há indicação de algum procedimento invasivo, especialmente a cirurgia.

Atualmente, existem diferentes opções terapêuticas para tratamento das varizes, desde a cirurgia convencional (técnica predominante na rede pública, onde a veia doente é retirada da perna) até a aplicação de laser, radiofrequência e escleroterapia com espuma. A escolha depende das características de cada paciente e de cada quadro. “O objetivo do tratamento das varizes não é apenas melhorar a aparência das pernas, mas interromper a progressão da doença e prevenir as complicações”, ressalta Nelson Wolosker.

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