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🕒 Atualizado em 02/06 às 19h53

Estudo da Unesc revela impactos da violência, de doenças crônicas e do isolamento no envelhecimento

Um retrato amplo sobre as condições de vida da população idosa de Criciúma começa a ser desenhado por pesquisadoras da Unesc. Os primeiros resultados do LIFE Study (Lifestyle, Genomic Instability, and Associated Factors in the Elderly) revelam desafios importantes relacionados à saúde física e mental, hábitos de vida, vulnerabilidade social e histórico de violência entre os idosos do município.

Conduzido pelo Grupo de Pesquisas Violência, Desigualdades e Saúde (ViDaS), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSCol), o estudo realizou 801 entrevistas domiciliares com pessoas de 60 anos ou mais. A pesquisa é considerada inédita na região por integrar análises sociais, comportamentais, clínicas e laboratoriais sobre o envelhecimento.

Para a reitora em exercício da Unesc Gisele Silveira Coelho Lopes, incentivar a Pesquisa é investir diretamente na qualidade de vida da comunidade. “Este estudo mostra a força da nossa Universidade e o quanto a ciência produzida aqui tem impacto direto na vida das pessoas. Seguiremos fortalecendo o apoio à Pesquisa, à Inovação e à formação de profissionais comprometidos com o desenvolvimento social, porque acreditamos que a Universidade só cumpre plenamente seu papel quando está conectada com as necessidades da sociedade”, enaltece.

A reitora licenciada e secretária de Estado da Educação, Luciane Bisognin Ceretta, afirma que aprimorar a Ciência é ampliar a capacidade de escutar a sociedade e responder aos seus desafios. “É por meio dessa escuta qualificada que construímos uma comunidade mais consciente, mais justa e preparada para cuidar de todas as gerações. A Pesquisa nos coloca diante de realidades que não podem ser ignoradas e nos convoca a agir com mais sensibilidade, responsabilidade e compromisso”, destaca Luciane.

Entre os dados que mais chamam atenção está a multimorbidade: 83,5% dos idosos entrevistados convivem com duas ou mais doenças crônicas simultaneamente. A Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) aparece como a condição mais frequente, atingindo 64% da amostra, seguida por colesterol alto (47%) e artrite ou artrite reumatoide (40%).

A pesquisa também identificou indicadores preocupantes relacionados à saúde mental. Conforme o levantamento, 24,2% dos idosos apresentam depressão, enquanto 23,9% possuem quadros de ansiedade moderados a graves. Além disso, 13,4% relataram sentimentos de solidão e 15,2% apresentaram comprometimento cognitivo.

Os hábitos de vida também aparecem como fator de atenção. Mais da metade dos participantes (56,8%) são considerados inativos fisicamente e 54,8% possuem má qualidade do sono. Em relação ao estado nutricional, 57,1% apresentam excesso de peso. Na avaliação nutricional, quase metade (49,0%) encontram-se em risco de desnutrição.

Outro ponto sensível revelado pelo estudo envolve a violência ao longo da vida. Os resultados mostraram que 58,7% dos idosos sofreram agressões físicas de familiares durante a infância. Já no envelhecimento, a prevalência de violência doméstica atual é de 16,3%, enquanto 12,9% relataram abuso econômico. O risco de violência atinge 22,2% da amostra.

Olhar a ser ampliado

Para a professora Susana Cararo Confortin, uma das coordenadoras do estudo, os resultados reforçam a necessidade de ampliar o olhar sobre o envelhecimento. “Os dados da pesquisa acendem um alerta importante para toda a sociedade. Observamos alta prevalência de doenças crônicas, multimorbidade e indicadores relevantes de depressão, ansiedade e risco de violência. Esse cenário reforça a necessidade de ampliar ações voltadas ao envelhecimento saudável, garantindo mais qualidade de vida, autonomia e suporte aos idosos”, destaca.

A pesquisa também evidencia vulnerabilidades socioeconômicas importantes. Quase metade dos participantes (47,7%) pertencem às classes D-E, enquanto apenas 11,6% integram as classes A-B. Além disso, 81,0% não exercem atividade remunerada e 74% dependem da aposentadoria.

Entre os participantes, houve predominância de mulheres (62,8%) e de idosos de 60 a 69 anos (51,2%). A maioria se autodeclarou branca (83,6%), vive com companheiro(a) (56,0%) e possui de cinco a oito anos de estudo (40,4%). O levantamento ainda mostra que 89,8% não possuem cuidador e 95,8% são deambulantes, ou seja, conseguem se locomover.

Para a professora Vanessa Iribarrem Avena Miranda, que também coordena o trabalho, o estudo mostra que o envelhecimento precisa ser compreendido de forma integral. “Não estamos falando apenas da presença de doenças, mas também de fatores sociais, emocionais e das experiências acumuladas ao longo da vida. Os dados revelam idosos que convivem com situações de vulnerabilidade, sofrimento mental, inatividade física e até violência, o que reforça a importância de políticas públicas integradas e do fortalecimento da rede de cuidado”, enfatiza.

A iniciativa conta ainda com a colaboração dos pesquisadores doutores Cristiane Damiani Tomasi; Ione J. C. Schneider; Larissa P. Marques; Maria Inês da Rosa; Tamy Colonetti; Vanessa M. de Andrade; Felipe Dal Pizzol; Aline Rodrigues Barbosa; Marysabel Telis Silveira; e Liliana Yanet Gómez Aristizábal, além da parceria entre o PPGSCol e o Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Unesc (PPGCS). 

Pesquisa inédita une saúde, genética e qualidade de vida

O LIFE Study é coordenado pelas professoras Susana Cararo Confortin e Vanessa Iribarrem Avena Miranda, reunindo pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina e da Fundação Oswaldo Cruz.

Parte dos participantes foram selecionados para realizar exames laboratoriais, incluindo coleta de sangue e amostra de mucosa oral, permitindo analisar marcadores relacionados ao envelhecimento celular e à instabilidade genômica.

Segundo Vanessa, o diferencial da pesquisa está justamente na abordagem interdisciplinar. “Desta forma, unimos informações sociais, clínicas e laboratoriais. Isso nos permite compreender melhor os fatores que impactam a qualidade de vida da população idosa e pensar em estratégias futuras de prevenção e promoção da saúde”, comenta.

“Mais do que produzir conhecimento científico, o LIFE Study tem o propósito de contribuir diretamente com o planejamento de políticas públicas e serviços de saúde mais alinhados às necessidades reais da população idosa de Criciúma. Cada entrevista realizada representa uma oportunidade de compreender melhor essa população e pensar em caminhos para um envelhecimento mais saudável e digno”, completa Susana.

Apoio científico e financiamento

O projeto recebeu apoio financeiro do Edital de Chamada Pública FAPESC 09/2024 – Mulheres + Pesquisa 1ª edição e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio da Chamada CNPq/MCTI nº 44/2024 – Faixa B – Grupos Consolidados.