O mercado de criptomoedas entra em uma nova etapa de desenvolvimento marcada por mudanças regulatórias, ampliação dos produtos financeiros ligados a ativos digitais e novas aplicações para a tecnologia blockchain. No Brasil, a transformação também já pode ser observada em dados oficiais: segundo a Receita Federal, entre agosto de 2019 e dezembro de 2025, foram declarados R$ 1,58 trilhão em operações de compra e venda de criptoativos, dos quais R$ 1,13 trilhão correspondeu a stablecoins.
Ao mesmo tempo, regras para prestadores de serviços de ativos virtuais, novos veículos de investimento e aplicações envolvendo tokens ampliam a conexão entre o mercado cripto e o sistema financeiro tradicional. A partir desses movimentos, quatro tendências ajudam a identificar frentes que podem influenciar o setor nos próximos anos. Confira:
1. Regulação mais estruturada dos ativos digitais
A criação de regras específicas deve continuar entre os principais temas para o mercado. No Brasil, o Banco Central passou a concentrar a competência para regular, autorizar e supervisionar prestadoras de serviços de ativos virtuais. A Resolução BCB nº 520, de 2025, estabeleceu regras para a constituição e o funcionamento dessas empresas e para a prestação de serviços por instituições autorizadas.
A Receita Federal também iniciou uma nova etapa de acompanhamento das operações. Desde julho de 2026, as transações de criptoativos passaram a ser informadas por meio da DeCripto, sistema alinhado ao padrão internacional da OCDE para reporte de ativos digitais.
A regulação também alcança situações específicas relacionadas à natureza dos tokens. A Comissão de Valores Mobiliários, por exemplo, mantém competência sobre criptoativos que sejam enquadrados como valores mobiliários, incluindo determinados tokens que representam ativos tradicionais.
2. Stablecoins ganham espaço além da negociação
As stablecoins, moedas digitais vinculadas a referências como dólar ou real, já representam uma parcela expressiva das operações declaradas no país. Em 2025, elas responderam por aproximadamente 80% do volume mensal de criptoativos informado à Receita Federal. No período entre 2019 e 2025, concentraram 71,7% dos R$ 1,58 trilhão em operações declaradas.
A utilização desses ativos também começa a alcançar outras funções financeiras, como gestão de caixa e movimentação de recursos, por exemplo. Além disso, seu uso pode ser associado a cartões que permitem converter ativos digitais em moeda local durante pagamentos. A modalidade ganhou atenção após as novas regras do Banco Central para o setor.
3. Produtos regulados ampliam as portas de entrada
O acesso a criptomoedas também pode ser influenciado pela expansão de produtos negociados em mercados tradicionais. Nos Estados Unidos, a aprovação de ETFs à vista de Bitcoin e Ether criou uma forma de exposição aos ativos digitais sem que o investidor precise necessariamente comprar e custodiar as moedas diretamente.
Em 2025, a SEC autorizou ainda a criação e o resgate de cotas de determinados produtos cripto por meio de ativos, em vez de apenas dinheiro. Segundo a própria comissão, a mudança pode reduzir custos e aumentar a eficiência dessas operações.
No varejo, as próprias corretoras também oferecem diferentes condições para facilitar a entrada de novos investidores. Há plataformas que disponibilizam campanhas ou modalidades em que é possível comprar cripto sem taxa, enquanto outras aplicam taxas reduzidas conforme o tipo e o volume da operação.
Essas condições não eliminam outros custos possíveis, como spread, tarifas de saque ou taxas relacionadas à rede. Ainda assim, podem reduzir o custo inicial das operações e facilitar o acesso de novos investidores ao mercado de criptoativos, especialmente em compras de menor valor.
4. Tokenização aproxima blockchain de ativos tradicionais
A tokenização consiste em representar digitalmente ativos ou direitos por meio de tokens registrados em uma infraestrutura de blockchain. A aplicação pode envolver títulos, recebíveis, fundos e outros instrumentos financeiros, conforme a estrutura utilizada e as regras aplicáveis.
No mercado financeiro, esse modelo permite associar ativos tradicionais a registros digitais, criando novas formas de emissão, negociação e transferência. A tecnologia também pode ser aplicada à representação de direitos sobre determinados ativos, desde que a operação esteja de acordo com a regulamentação correspondente.
Com o avanço dessas aplicações, a tokenização tende a aproximar cada vez mais a infraestrutura de blockchain de operações financeiras que já existem no mercado tradicional, ampliando os possíveis usos da tecnologia para além das criptomoedas, como a modalidade já existente de renda fixa digital, por exemplo.
A combinação entre regras específicas, stablecoins, produtos regulados e tokenização indica que a evolução do mercado de criptomoedas nos próximos anos deverá envolver tanto a negociação de moedas digitais quanto novas formas de representação, movimentação e acesso a ativos. Para quem acompanha ou pretende investir no setor, entender como cada modalidade funciona passa a ser parte importante da decisão sobre onde e como operar.










