Casa centenária de Luigi Girardi guarda história real que inspirou citação em novela da Globo

Às margens da rodovia que liga Nova Veneza ao distrito de São Bento Baixo, uma casa construída em 1924 atravessa mais de um século como um dos imóveis mais antigos e imponentes da história do município. Com dois pisos e características consideradas modernas para a época, a residência pertenceu ao imigrante italiano Luigi Girardi, um dos maiores proprietários de terras e empreendedores do início do século XX na região.

A história da família ficou famosa após o nome de Girardi ser citado em um capítulo da novela Três Graças, exibida pela TV Globo, em uma fala do personagem interpretado por Miguel Falabella. Na trama, o imigrante teria perdido suas terras após um golpe envolvendo religiosos, narrativa que repercutiu nas redes sociais e encontra paralelos na memória local. “A história da novela é quase verídica”, afirma Davi Masiero, filho da atual proprietária da casa, dona Hilda Bardini Masiero. “Meu pai comprou essa terra depois. Antes, ela tinha sido doada pelo próprio Luigi Girardi a uma congregação religiosa, e mais tarde alguns religiosos venderam a área”, revela.

Segundo Masiero, Luigi Girardi foi um empreendedor à frente de seu tempo, mantendo serraria, tafona, produção de farinha de milho e mandioca, olaria e até um sistema de canalização de água para movimentar as atividades. “Essa casa era uma mansão para a época. Se comparar com a Casa de Pedra, dá para ver como ela era moderna. Hoje, com certeza, é uma das casas mais bonitas e antigas de Nova Veneza”, relata. Apesar do período de prosperidade, a família perdeu grande parte das terras ao longo dos anos, e os descendentes acabaram se dispersando.

Atualmente habitada pela família Masiero, a casa segue preservada e carrega uma história pouco conhecida fora do círculo local. Para Davi, o imóvel representa mais do que uma construção antiga. “Essa casa é um pedaço da história de Nova Veneza que ficou esquecida. Ela mostra quem foi o Luigi Girardi e o quanto ele ajudou a construir essa região”, afirma.

A história de Luigi Girardi contada por seu neto, Ignacio Girardi

Ignacio Girardi, neto de Luigi, hoje com 79 anos, guarda lembranças afetivas e fragmentos do cotidiano do avô que ajudam a compor o retrato de um homem culto, religioso e profundamente envolvido com a vida comunitária. “Ele tinha uma biblioteca grande e gostava muito de ler. Muitas vezes, à noite, eu via a luz da biblioteca acesa”, recorda.

Segundo Ignacio, o avô sabia passagens inteiras da Bíblia de memória e mantinha o hábito de, quase todas as noites, ir à casa do filho para ouvir o jornal no rádio, principal meio de informação da época. Para ele, Luigi Girardi foi um homem muito à frente do seu tempo, não apenas pelo empreendedorismo, mas pela iniciativa e presença ativa na vida social da comunidade.

Ignacio também relembra a atuação do avô em obras importantes da região, como pontes e alicerces que resistiram a enchentes e serviram de base para reconstruções posteriores. Além disso, conta que Luigi participou da criação de uma serraria e de outras estruturas produtivas que marcaram o desenvolvimento local.

Sobre o sobrado, Ignacio relata que o avô doou o imóvel a uma congregação religiosa com a condição de que fosse construído um seminário e que ele pudesse frequentar a missa diariamente. No entanto, pouco tempo depois, Luigi acabou deixando a casa e passou seus últimos anos vivendo com uma filha em Criciúma.

Hoje, essas memórias permanecem como um dos últimos testemunhos diretos da trajetória de Luigi Girardi, preservadas pelo neto e transmitidas como parte da história viva de Nova Veneza.