A forma como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mede o desemprego no Brasil tem gerado críticas, apesar de apontar melhora nos indicadores, deixa fora da conta problemas estruturais do mercado de trabalho.
Pelo critério oficial, basta a pessoa ter trabalhado uma única hora na semana para não ser considerada desempregada. Isso inclui bicos, trabalhos informais ou ajuda sem pagamento em negócio da família. Na estatística, essa pessoa já aparece como “ocupada”, mesmo sem renda fixa, estabilidade ou garantia mínima de subsistência.
Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) mostram taxa de desemprego de 5,1%, a menor da série histórica. O problema é que esse número não reflete a qualidade das ocupações. O Brasil tem 103 milhões de pessoas ocupadas, mas 37,6% estão na informalidade, o equivalente a 38,7 milhões de trabalhadores.
Outro ponto pouco destacado é o crescimento do trabalho por conta própria, ou seja: autônomos em geral, prestadores de serviço individuais, comerciantes informais, motoristas de aplicativo, vendedores ambulantes ou profissionais liberais sem empregados. São 26,1 milhões de pessoas, recorde histórico. Esse avanço indica que parte relevante da ocupação vem de atividades precárias, sem proteção social e com renda instável.
O emprego com carteira assinada no setor privado cresceu 2,4% no ano, mas ficou estável no último trimestre, sinalizando desaceleração. Ainda assim, o dado anual é usado como base para propaganda do Governo Federal sobre o mercado formal.
Há também o contingente fora da força de trabalho. O país tem 66,2 milhões de pessoas nessa condição, número que cresceu 1,3 milhão em um ano. Quem não trabalha e não procura emprego não entra no cálculo do desemprego, o que ajuda a manter a taxa oficial em patamar baixo.
O desalento segue relevante. São 2,6 milhões de pessoas que gostariam de trabalhar, mas desistiram de procurar vaga. Elas não aparecem como desempregadas, o que dilui o problema na estatística.
Mesmo a taxa de subutilização, de 13,4%, recebe menos atenção. O índice representa 15,3 milhões de brasileiros que trabalham menos horas do que gostariam ou estão disponíveis para trabalhar, mas não conseguem ocupação adequada.
O rendimento médio real aparece em nível recorde, R$ 3.613, mas os próprios dados indicam que os maiores aumentos se concentram em setores específicos, como administração pública e atividades financeiras, sem refletir a realidade da maioria dos trabalhadores.
Na prática, o método do IBGE mede se houve alguma atividade, ainda que mínima. Não mede se há emprego suficiente para garantir renda, estabilidade e autonomia econômica.

